24.11.06

O GATO



Sempre possuí um certo receio de gatos. Minha mãe sempre adorou. Até uns dois anos atrás (quando eu tinha dez anos), eu chorava só em ver gatos. Depois que nasci minha mãe nunca mais os criou. Mas, de um tempo pra cá, aprendi a controlar o meu medo.

Talvez eu tenha tido algum trauma de infância. Não me lembro. O fato é que achando que meu medo tinha diminuído (o que era mentira, já que o máximo que poderia ser dito é que eu o tinha disfarçado), ela resolveu adotar um gato: Mike.

Me recusava a ficar sozinho num mesmo aposento que ele. Eu ia para a casa do vizinho quando não tinha ninguém em casa. Minha casa era grande, de primeiro andar. Quantas vezes, assistindo TV em meu quarto, o Mike subia em cima de mim e ficava me encarando, desafiando. Amedrontado, não conseguia reagir, e quando alguém se aproximava, ele se afastava enquanto eu me calava com vergonha dos meus medos.

Resolvi conversar com meu avô, ele era o único cara na terra em quem eu confiava. Ele, ao conversar comigo, me contou que os gatos são guardiões do outro mundo, via os espíritos, eram cercados de enigmas e mistérios. Enxergavam na noite e possuíam dons desconhecidos pelos humanos. Ele me explicou que talvez eu fosse sensível demais, e o gato havia percebido isso, e, ao invés de fugir, eu deveria tentar me aproximar.

Várias vezes tentei me aproximar, mas o medo me impedia... até o dia em que resolvi que eu iria chegar perto do Mike de qualquer jeito.

Cheguei da escola e não vi ninguém em casa. Entrei chamando pelo Mike inutilmente. Ele não iria atender o chamado de alguém que nunca o tinha chamado. Subi as escadas para o primeiro andar e o vi no último degrau. Chamei seu nome pela última vez, em vão. Quando me aproximei ele soltou um miado feio, se arrepiando e mostrando as garras e dentes. Com o susto gritei e caí rolando pelas escadas.

Como era ridícula a opinião do meu avô... vi-o descendo as escadas atrás de mim e finalmente pude acaricia-lo. Seu pelo era macio e felpudo, só que ele agia como se não me sentisse. Eu também não me sentia. Continuei olhado-o descendo as escadas em segundos eternos até ele se aproximar do meu rosto, sem vida, e lamber o sangue que cobria meus olhos.

Quando chegou, minha mãe chorou ao me ver no chão. Eu também. O gato subiu as escadas, ignorando a situação, passando por mim. Com certeza ele não me viu ou sentiu. Tentei bater nele, em vão. Hoje, sentado na minha cama, no meu quarto que é arrumado todos os dias mesmo sem ser utilizado, olho para minha TV lembrando dos programas que assistia. Mike entrou e subiu, como se sentasse perto de mim, ainda me ignorando.

Enquanto tento acariciá-lo pela segunda vez em minha existência, tento pensar se ele realmente ignora minha presença ou se numa vingança pelo o quê eu não sei, ele somente finge que não me percebe.

Não sei a resposta, mas tenho toda a eternidade para descobrir.

abr@ços

Elloc