NUVENS

Foi tudo tão rápido... Uma coincidência, um olhar, um encontro, um toque de mãos, um beijo, e um adeus nunca dado.
Marcelo está no alto de uma falésia, refletindo. É como se ele sempre voltasse do enterro de Fábia, sua namorada. Quarenta dias atrás ela faleceu e nesse período, todos os dias depois do expediente, ele se dirige a essa falésia, sem hora pra voltar. Aquele canto era só deles, exclusivamente deles. Diversas vezes ocorreu de ficarem de manhã até de noite, conversando, olhando, ou simplesmente fazendo cafuné um no outro. E enquanto reflete, olhando as ondas e as nuvens, na sua cabeça vem um diálogo:
-Nós temos que fazer um pacto.
Ele rindo, olha em seus olhos e pergunta:
-Que pacto?
-Quando um de nós dois morrermos....
-Seremos eternos!
-É sério! Quando um de nós dois morrermos, temos que nos comunicar um com o outro.
-Mas como?
-Pelas nuvens! Veja! Olhe quantas figuras são formadas! Será que não há alguém que as moldam?
-É verdade...
-Então, está “pactuado”?
-Com certeza.
Nesse momento suas lágrimas caem pelo seu rosto. Sempre caem. No fundo, ele olha para as nuvens e fica aguardando algum contato.
De repente aparece um coelho formado em meio às nuvens. Logo vem a lembrança de como Fábia gostava de coelhos. Ela tinha dois, um que o pai dela tinha dado e outro que ele tinha comprado. Esse está com ele desde sua morte. Ela tinha dado o nome de Pluft.
Ele olha mais uma vez e vê algo parecido com um relógio. Ele olha para o pulso. É tarde, mas não é isso que ele vê, e sim a cara de felicidade de Fábia ao vê-lo feliz ganhando esse relógio.
E, finalmente, ele vê um coração, muito bem definido. Com uma lágrima no rosto, ele abre um grande sorriso e se levanta para ir pra casa, na certeza de que nunca mais irá precisar voltar ali.
Agora ele sente que ela pode descansar em paz.

